06 abril 2011
tenho um okupa
O meu coração tem um okupa.
Para quem não sabe o que é, é um tipo que entra e ocupa um espaço abandonado ou desabitado. Não pede licença, é entrar e andar. Instala-se, faz dali a sua casa, sem nunca pedir permissão ao proprietário. No caso, eu. Depois é um tá quieto para o pôr dali a mexer. Não basta meia dúzia de "vai-te embora e põe-te a andar". Não dá. Não funciona... É avisa-lo que já chegou a hora de ir procurar outro lugar, e esperar que ele meta a sua mochilinha às costas, e que deixe o lugar de novo desabitado, abandonado. Acrescento eu que talvez um pouco danificado, mais uns pregos, mais uns lixos, mais umas coisas que não deviam. Mas isso já sou só eu a falar.
Conversa
Irmão: Pois eu nem sabia que ele estava doente. Ninguém me disse.
Irmã: Tinha cancro.
Irmão: Mas era cancro benigno?
Irmã: ??? Cancro benigno? Isso não existe. É sempre maligno.
Cancro é cancro. Estás a confundir com tumores.
Irmão: Ahh! Não sabia.
Irmã: Pois.
Irmã: Tinha cancro.
Irmão: Mas era cancro benigno?
Irmã: ??? Cancro benigno? Isso não existe. É sempre maligno.
Cancro é cancro. Estás a confundir com tumores.
Irmão: Ahh! Não sabia.
Irmã: Pois.
05 abril 2011
sentido de oportunidade
ele: Olha vais sair hoje?
eu: Vou. Vou a um velório.
ele: epá... ahh... lamento.
eu: Também eu.
eu: Vou. Vou a um velório.
ele: epá... ahh... lamento.
eu: Também eu.
04 abril 2011
Perder-te (parte 325)
Perder-te é sem dúvida das coisas mais tristes de toda a minha vida. Ninguém devia perder quem ama. Nem por este nem por outro motivo. Nunca.
Sabia que vinha o dia em que me dirias um adeus destes. Mas quem ama não prepara. Fecha os olhos, dois, três dias, espera que o sentimento passe, mas egoísta, acha sempre que quem amamos nunca vai. Mas vai.
Tu um dia lá abriste os olhos e resolveste ir. Nem olhaste para trás. E eu fiquei, tal e qual um gato das botas, triste a ver-te partir. Resta-me apenas aceitar e deixar-te ir. Ficar quietinha uns minutos, quem sabe podes voltar atrás, e se voltares tens de me ver no mesmo sítio.
Lembro-me de sentir esta dor outras vezes. Mas cada vez que volta, volta com mais força. Traz com ela o passado e o presente. Faz-nos pensar porque raio têm de nos acontecer outra vez. Porquê a nós. Porquê outra vez eu. Diz que é normal. Eu diria que era normal se fosse uma minoria da nossa vida, se fossem sentimentos esporádicos, que são rompidos por mais amor e amizade. Mas não. Comigo não.
A minha tendência é isolar-me. Digam-me cá quem é que quer ouvir, "ah e tal ele não gosta de ti. Esquece-o." ou o famoso "ele não te merecia, mereces melhor.". É bonito, sim senhor, mas quem é que vê uma pessoa a sofrer da dor maior que existe que é a perda, e perder alguém que se ama é absolutamente devastador, e se saí com tal pérola? Ele não gosta de ti. Ahh, isso é capaz de me fazer sentir melhor? Não. Ou a do mereces melhor quando foi ele que se pôs a mexer? Também não funciona. A mim não me parece.
O tempo. O tempo diz que cura, e eu acredito. O tempo não faz esquecer, acalma o que sentimos e deixa-nos respirar melhor, ver as cores das coisas e permite-nos sonhar outra vez. O tempo permite-nos viver finalmente, novamente. O tempo são dias, semanas, meses ou anos. Depende da dor, do abandono e da pessoa. Mas o tempo passa tão devagar quando se sofre. Sempre que queremos que os minutos passem as horas andem, ele teima em ficar preso naquele dia.
Perder-te é sentir vazio. É não saber o que vêm aí. É ter medo do futuro e dor no presente. É sentir saudade pelo que passou. É sentir-me perdida. É sentir-me como que falhada mais uma vez. É saber que não mais vou sentir a tua boca e a tua pele. Nunca mais irei sentir o teu cheiro e o toque no teu corpo. É saber que a tua mão não me vai descobrir novamente. É ter saudades. É ter muitas saudades.
Perder-te faz-me pensar que a última vez devia ter sido inesquecível, que apesar do amor, tenho medo de já te perder as feições, o som da tua voz. O lugar das pintas. A cor dos olhos. Não mais me lembrar do cheiro. É perder-te por inteiro.
Sabia que vinha o dia em que me dirias um adeus destes. Mas quem ama não prepara. Fecha os olhos, dois, três dias, espera que o sentimento passe, mas egoísta, acha sempre que quem amamos nunca vai. Mas vai.
Tu um dia lá abriste os olhos e resolveste ir. Nem olhaste para trás. E eu fiquei, tal e qual um gato das botas, triste a ver-te partir. Resta-me apenas aceitar e deixar-te ir. Ficar quietinha uns minutos, quem sabe podes voltar atrás, e se voltares tens de me ver no mesmo sítio.
Lembro-me de sentir esta dor outras vezes. Mas cada vez que volta, volta com mais força. Traz com ela o passado e o presente. Faz-nos pensar porque raio têm de nos acontecer outra vez. Porquê a nós. Porquê outra vez eu. Diz que é normal. Eu diria que era normal se fosse uma minoria da nossa vida, se fossem sentimentos esporádicos, que são rompidos por mais amor e amizade. Mas não. Comigo não.
A minha tendência é isolar-me. Digam-me cá quem é que quer ouvir, "ah e tal ele não gosta de ti. Esquece-o." ou o famoso "ele não te merecia, mereces melhor.". É bonito, sim senhor, mas quem é que vê uma pessoa a sofrer da dor maior que existe que é a perda, e perder alguém que se ama é absolutamente devastador, e se saí com tal pérola? Ele não gosta de ti. Ahh, isso é capaz de me fazer sentir melhor? Não. Ou a do mereces melhor quando foi ele que se pôs a mexer? Também não funciona. A mim não me parece.
O tempo. O tempo diz que cura, e eu acredito. O tempo não faz esquecer, acalma o que sentimos e deixa-nos respirar melhor, ver as cores das coisas e permite-nos sonhar outra vez. O tempo permite-nos viver finalmente, novamente. O tempo são dias, semanas, meses ou anos. Depende da dor, do abandono e da pessoa. Mas o tempo passa tão devagar quando se sofre. Sempre que queremos que os minutos passem as horas andem, ele teima em ficar preso naquele dia.
Perder-te é sentir vazio. É não saber o que vêm aí. É ter medo do futuro e dor no presente. É sentir saudade pelo que passou. É sentir-me perdida. É sentir-me como que falhada mais uma vez. É saber que não mais vou sentir a tua boca e a tua pele. Nunca mais irei sentir o teu cheiro e o toque no teu corpo. É saber que a tua mão não me vai descobrir novamente. É ter saudades. É ter muitas saudades.
Perder-te faz-me pensar que a última vez devia ter sido inesquecível, que apesar do amor, tenho medo de já te perder as feições, o som da tua voz. O lugar das pintas. A cor dos olhos. Não mais me lembrar do cheiro. É perder-te por inteiro.
Perder-te é perder-me. É sentir que contigo era melhor. É saber que o meu sorriso contigo era verdadeiro. Que tudo em mim era genuíno. É ter certezas do que sinto. É saber que te amei.
Perdi-te e perdi.
Perdi-te e perdi.
8
É sabido por quem me conhece que o natal é coisinha sem interesse para mim. Gosto de dar prendas e de receber. Sim, gosto. Gosto de ver a cara das pessoas com aquele ar "inapá, era mesmo isto, pá! Lembraste-te!", ao jeito "ah e tal és espectacular!".
Mas o jantar, o bacalhau, os doces, as músicas (4 instrumentais sempre em loop), acrescentando a seca que é ser a mais nova com o meu irmão que tem menos 3 anos que eu todos os natais. Eu não gosto do natal, dizia eu todos os anos. E ainda digo. Mas hoje sinto saudades do natal que tinha, do tal natal que eu nunca gostei. Porque tal como eu e o meu irmão somos os mais novos naquela mesa de 9, os antigos vão envelhecendo.
Hoje morreu o nosso pai natal de muitos, muitos anos. Pai natal que já não lia o "de" e o "para" de cada prenda, já tinha um pequeno ajudante de pai natal, o meu irmão, o mais novo apesar dos seus 22 anos. Pessoa de grande estima. A idade e as doenças não perdoam, e há muito que se sabia que mais dia menos dia íamos ficar sem ele.
É difícil, apesar de tudo era um natal pequeno de apenas 9, que agora passará a ser de 8. Pelo menos assim espero. Talvez este ano, pela primeira vez veja o natal de outra forma, talvez veja que aquela união familiar é cada vez mais frágil e quiçá aprecie pela primeira vez, em pleno, o meu natal.
Mas o jantar, o bacalhau, os doces, as músicas (4 instrumentais sempre em loop), acrescentando a seca que é ser a mais nova com o meu irmão que tem menos 3 anos que eu todos os natais. Eu não gosto do natal, dizia eu todos os anos. E ainda digo. Mas hoje sinto saudades do natal que tinha, do tal natal que eu nunca gostei. Porque tal como eu e o meu irmão somos os mais novos naquela mesa de 9, os antigos vão envelhecendo.
Hoje morreu o nosso pai natal de muitos, muitos anos. Pai natal que já não lia o "de" e o "para" de cada prenda, já tinha um pequeno ajudante de pai natal, o meu irmão, o mais novo apesar dos seus 22 anos. Pessoa de grande estima. A idade e as doenças não perdoam, e há muito que se sabia que mais dia menos dia íamos ficar sem ele.
É difícil, apesar de tudo era um natal pequeno de apenas 9, que agora passará a ser de 8. Pelo menos assim espero. Talvez este ano, pela primeira vez veja o natal de outra forma, talvez veja que aquela união familiar é cada vez mais frágil e quiçá aprecie pela primeira vez, em pleno, o meu natal.
Lei de Murphy
"Se algo pode dar errado, dará errado da pior maneira, no pior momento
e de modo a causar o maior estrago possível"
Sempre acreditei na lei de Murphy, sabe-se lá porque raio não acreditei noutras coisas leves com o mesmo afinco. Aparentemente, talvez pela força que fiz em acreditar nisso, as coisas estão mesmo a dar errado, e sempre que uma dá errado vem outra só naquela, toma lá, vai almoçar. A morte ronda, e a minha dor e a dos outros anda sempre a pairar. É a lei de Murphy no seu esplendor, senhores!
e de modo a causar o maior estrago possível"
Sempre acreditei na lei de Murphy, sabe-se lá porque raio não acreditei noutras coisas leves com o mesmo afinco. Aparentemente, talvez pela força que fiz em acreditar nisso, as coisas estão mesmo a dar errado, e sempre que uma dá errado vem outra só naquela, toma lá, vai almoçar. A morte ronda, e a minha dor e a dos outros anda sempre a pairar. É a lei de Murphy no seu esplendor, senhores!
03 abril 2011
dá-me música
Há 13 anos perdia o meu pai, que por sua vez perdeu a sua batalha contra o cancro. Foi duro, eu era só uma miúda. Ponderei se havia de escrever sobre ele neste blog, se não me estaria a expor demasiado, mas hoje estou assim-assim, muito por isto, muito por outras coisas, e apetece-me.
O meu pai era o pai mais cool e ao mesmo tempo mais estranho que uma miúda podia ter, era músico, e fazia disso vida, não trabalhava num banco e não chegava a casa as 19h. Não. Não se sentava à mesa aos jantares porque estava a trabalhar, a ideia dele de diversão comigo era fazer-me playbacks de músicas conhecidase pôr-me a cantar. Era levar-me para o estúdio e gravar a minha voz. Era pôr-me a tocar em casa. Nunca brincou comigo as bonecas, nunca foi meu paciente quando eu era médica. Não gostava de fazer puzzles. Para isso servia a minha mãe.
Mas eu adorava-o, e ele a mim, ele dizia que eu era a filha preferida, e não, não era filha única, mas ele dizia em comparação com os outros dois que eu era a mais perspicaz, a mais esperta, a mais desenrascada. Como ele, dizia sempre que nós éramos os mais parecidos. Ele lá viu isso em mim mesmo só tento convivido comigo até aos 11. Mas ele lá viu isso em mim.
Hoje vejo que acertou em muito, e errou em muita coisa, é normal. Ele achou que eu ia ser a mais bem sucedida, a que ia lutar mais pelos meus sonhos, e isso, até ver, tem sido o que tenho feito. Penso agora que talvez o tenha feito mais pelo que ele sempre me fez acreditar do que realmente a minha personalidade. Ele condicionou-me em muita coisa, e eu agradeço por isso.
Tento não ser saudosista, ultrapassei tudo muito bem, mesmo sendo a enfermeirinha de trazer por casa, a menina dos remédios, a que animava o pai com histórias de um futuro cheio de netos na casa do Algarve onde gostávamos de passar férias. Coisas que eram certezas para mim. Histórias que eram alentos para ele, mas que ele já sabia que não iam acontecer. E eu também. Mesmo assim dizia que ele não podia ir, então ele ainda tinha que fazer tanta coisa comigo. Mas não o fez. O cancro levou a melhor. E eu fiquei sozinha muito tempo.
Ainda hoje penso nele, e mesmo quando estou bem disposta penso nas coisas que lhe gostava de contar. Tenho uma enorme tristeza ter ficado tanto por dizer, tanto por contar. Tanta coisa da vida dele que eu, inevitavelmente, nunca irei saber. Isso realmente é das coisas que mais me custa. É o desconhecido da vida dele, é o nunca ter conselhos masculinos, o ter passado a adolescência e agora o início da minha vida adulta sem um pai. E o que eu precisava dele. E do colo dele.
Nunca mais me vou esquecer dessa sexta-feira, último dia de escola antes das férias da Pascoa, em que fiquei quase duas horas à espera da minha mãe na escola. E ela não aparecia. Nada dela. Não havia cá telemóveis como há hoje, em 1998, não era comum. A minha mãe tinha que partilhava com o meu pai quando estava internado, e eu lá saquei do papelinho e fui ligar de um quiosque. Já era hábito ela esquecer-se de mim. Não a condeno, mas acontecia com regularidade, achei que era mais um dia. Lá me sentei na beira da estrada, com um livro para ler, e ao fim de hora e meia, a senhora do quiosque lá me disse, "não lhe quer ligar?". Agradeci e assim o fiz. Pediu desculpa, que já ia a caminho. E vem buscar-me um vizinho. Leva-me para casa e para mim era galhofa, a filha era um ano mais nova e eu adorava ir a casa dos outros, era sempre divertido estar numa família normal.
Eu não sabia que todos já sabiam. Quando voltei a casa no final do dia, não queria acreditar. E não acreditei, a luz da casa de banho estava ligada e a porta aberta, estavam lá as botas dele preferidas. Ele só podia estar na casa de banho. Mas não. Não fui ao funeral. Não fui ao enterro. Nunca fui ao cemitério nem a missas do ou pelo 7 dia. No fundo eu já sabia que ia acontecer. Mas custa-me sempre o luto, sou péssima no luto. Mesmo quando sei que vai acontecer.
Pai, gostava de ter dito que és o único homem que eu quero que me dê música.
O meu pai era o pai mais cool e ao mesmo tempo mais estranho que uma miúda podia ter, era músico, e fazia disso vida, não trabalhava num banco e não chegava a casa as 19h. Não. Não se sentava à mesa aos jantares porque estava a trabalhar, a ideia dele de diversão comigo era fazer-me playbacks de músicas conhecidase pôr-me a cantar. Era levar-me para o estúdio e gravar a minha voz. Era pôr-me a tocar em casa. Nunca brincou comigo as bonecas, nunca foi meu paciente quando eu era médica. Não gostava de fazer puzzles. Para isso servia a minha mãe.
Mas eu adorava-o, e ele a mim, ele dizia que eu era a filha preferida, e não, não era filha única, mas ele dizia em comparação com os outros dois que eu era a mais perspicaz, a mais esperta, a mais desenrascada. Como ele, dizia sempre que nós éramos os mais parecidos. Ele lá viu isso em mim mesmo só tento convivido comigo até aos 11. Mas ele lá viu isso em mim.
Hoje vejo que acertou em muito, e errou em muita coisa, é normal. Ele achou que eu ia ser a mais bem sucedida, a que ia lutar mais pelos meus sonhos, e isso, até ver, tem sido o que tenho feito. Penso agora que talvez o tenha feito mais pelo que ele sempre me fez acreditar do que realmente a minha personalidade. Ele condicionou-me em muita coisa, e eu agradeço por isso.
Tento não ser saudosista, ultrapassei tudo muito bem, mesmo sendo a enfermeirinha de trazer por casa, a menina dos remédios, a que animava o pai com histórias de um futuro cheio de netos na casa do Algarve onde gostávamos de passar férias. Coisas que eram certezas para mim. Histórias que eram alentos para ele, mas que ele já sabia que não iam acontecer. E eu também. Mesmo assim dizia que ele não podia ir, então ele ainda tinha que fazer tanta coisa comigo. Mas não o fez. O cancro levou a melhor. E eu fiquei sozinha muito tempo.
Ainda hoje penso nele, e mesmo quando estou bem disposta penso nas coisas que lhe gostava de contar. Tenho uma enorme tristeza ter ficado tanto por dizer, tanto por contar. Tanta coisa da vida dele que eu, inevitavelmente, nunca irei saber. Isso realmente é das coisas que mais me custa. É o desconhecido da vida dele, é o nunca ter conselhos masculinos, o ter passado a adolescência e agora o início da minha vida adulta sem um pai. E o que eu precisava dele. E do colo dele.
Nunca mais me vou esquecer dessa sexta-feira, último dia de escola antes das férias da Pascoa, em que fiquei quase duas horas à espera da minha mãe na escola. E ela não aparecia. Nada dela. Não havia cá telemóveis como há hoje, em 1998, não era comum. A minha mãe tinha que partilhava com o meu pai quando estava internado, e eu lá saquei do papelinho e fui ligar de um quiosque. Já era hábito ela esquecer-se de mim. Não a condeno, mas acontecia com regularidade, achei que era mais um dia. Lá me sentei na beira da estrada, com um livro para ler, e ao fim de hora e meia, a senhora do quiosque lá me disse, "não lhe quer ligar?". Agradeci e assim o fiz. Pediu desculpa, que já ia a caminho. E vem buscar-me um vizinho. Leva-me para casa e para mim era galhofa, a filha era um ano mais nova e eu adorava ir a casa dos outros, era sempre divertido estar numa família normal.
Eu não sabia que todos já sabiam. Quando voltei a casa no final do dia, não queria acreditar. E não acreditei, a luz da casa de banho estava ligada e a porta aberta, estavam lá as botas dele preferidas. Ele só podia estar na casa de banho. Mas não. Não fui ao funeral. Não fui ao enterro. Nunca fui ao cemitério nem a missas do ou pelo 7 dia. No fundo eu já sabia que ia acontecer. Mas custa-me sempre o luto, sou péssima no luto. Mesmo quando sei que vai acontecer.
Pai, gostava de ter dito que és o único homem que eu quero que me dê música.
02 abril 2011
sorte
Ter sorte é uma cena do caraças. Não é qualquer um que tem sorte. Não é qualquer um que nasce com sorte. Sorte é aquela coisa que não se pode controlar. É nascer numa família carinhosa e atenciosa, numa família com dinheiro, numa família unida. Ter sorte é ter boa família, é não rondarem as doenças, é ter pais e avós saudáveis, é ter bons professores. Ter sorte é ser bem ensinado desde a infância, é deixarem-nos ser crianças, e darem-nos asas quando acham que já somos adultos. Ter boa educação é sorte. Ser bem formado é uma sorte. É uma sorte.
Não cair na rua esburacada é uma sorte. Nunca ter partido nada é uma sorte. Ter um cabelo bonito, um sorriso bonito é uma sorte. Ter conseguido aquele emprego foi uma sorte. Ter bons amigos e pessoas verdadeiras e carinhosas à nossa volta é uma sorte. Amar e ser amado é uma sorte.
No fundo tudo se resume a um pouco de sorte e azar na vida. O estar no sítio certo à hora certa. O conhecer aquela pessoa especial naquele momento. O ter a atitude certa ou não. E sorte é mesmo isso, são coisas que acontecem de forma aleatória, e que nos influenciam de forma definitiva.
Quanto a mim, desejo-me muita sorte.
Não cair na rua esburacada é uma sorte. Nunca ter partido nada é uma sorte. Ter um cabelo bonito, um sorriso bonito é uma sorte. Ter conseguido aquele emprego foi uma sorte. Ter bons amigos e pessoas verdadeiras e carinhosas à nossa volta é uma sorte. Amar e ser amado é uma sorte.
No fundo tudo se resume a um pouco de sorte e azar na vida. O estar no sítio certo à hora certa. O conhecer aquela pessoa especial naquele momento. O ter a atitude certa ou não. E sorte é mesmo isso, são coisas que acontecem de forma aleatória, e que nos influenciam de forma definitiva.
Quanto a mim, desejo-me muita sorte.
01 abril 2011
a evolução dos homo sapiens, ou não.
Há fenómenos do caraças. Há coisas que se perdem no tempo, porque supostamente há evolução, outras não, talvez porque continuam a ser praticadas por pessoas cuja evolução humana deixa muito a desejar.
Aqui há muitos milhares de anos, ainda nem tinha por cá passado o cabeludo a quem chamaram Jesus, aquele que foi fruto de sexo casual, e depois “ah e tal estou grávida, mas foi um anjo que me disse...”, outras águas, lá chegaremos, antes dele cá andar viviam neandertais que puxavam as mulheres pelos cabelos e usavam ossinhos no cabelo, isto a acreditar no que os desenhos animados sempre me mostraram. Nesses tempos, não se devia falar, no máximo mandavam uns gruninhos num agudo fininho. Não havia cá higiene e conseguirem fazer fogo foi uma proeza. Andavam por aqui, por ali e caçavam. Vamos ao cerne da questão. Caçavam. Mas fazia sentido, tinha fome e caçavam para comer. Necessidade básica, era comer ou ser comido. Faziam umas lanças em pedra, osso e outros materiais, e lá esperavam tempos até conseguir alguma coisa. Até lhes tenho respeito, assumo.
Isso foi há muito muito tempo, tempos em que não havia electricidade, casas, carros, internet, telemóveis e i-pads. Nos dias que correm ainda existem uma cambada de tipos que andam para aí de armas em punho, já se deixaram de lanças e pedrinhas, agora é com caçadeiras e produtos afins. Armados até aos dentes, com cães que, coitadinhos, não viram outras vidas, e que só querem agradar o dono a cada coelho que trazem. Gente estúpida. Gente ainda menos evoluída do que os neandertais. Apesar de todos os gadgets.
Nos dias que correm ainda há gente que acha que caça é coisa boa. Que é uma necessidade. Conheço alguns, infelizmente. Há ainda os que afirmam que é um desporto. Antes fossem mexer as barrigas flácidas a correr atrás de uma bola. Mas não, preferem vestir aquelas roupinhas com print camuflado e rumarem a florestas, matas e afins onde matam tudo o que vêem. Ele é coisas grandes(não sei o quê), coelhos a passarinhos que coitados não alimentavam nem os meus gatos. Mas há que trazer muita coisa. Mostrar lá em casa como se caçou muito, e encher o peito a mostrar isso mesmo. Orgulhosos dos feitos.
Podiam vestir os camuflados e irem para o paintball, levar boladas de tinta no peito, que doem para caraças. Sei o que digo. Mas não, é mais giro irem para o campo, em grupo, com cães que, mais vezes do que se pensa, ficam por lá, porque não prestam para o serviço. E lá andam com aquele ar serrano do vinho tinto entre amigos também parvos e anormais, divertidinhos a mandar uns tiros.
Já tenho tido o azar de me cruzar, mais do que gostaria, com pessoas que gostam desta actividade. Daqueles que defendem e batem no peito afirmando pérolas como:
“Os caçadores são os mais amigos da natureza!”
“Caçar é natural.”
e outras, mas a minha predilecta é sem dúvida “É a lei da natureza.”
É aí que salta o pior que há em mim! Epá vem-me cá lamber as bolas! Não existem, é da raiva, claro está, mas lei da natureza?! Mas que lei é essa onde se leva com chumbinhos no corpo? Onde cães perseguem coelhos, para depois comerem ração seca feita de sei lá o quê. Que lei é essa que faz esta gente caçar, tão apoiados na moral, nos costumes e na tradição, e depois os faz irem aviar-se de comida ao hipermercado.
Acordam os homens às 5h da manhã, para irem para caçadas, em prol da família e da natureza, quando os filhos só querem comer bigmac's, pizzas gordurentas e chocapic como petisco. As mulheres já só comem peito de frango e folhinhas de alface, poucas, porque leram numa revista que não engorda. Nestas famílias ninguém passa fome, a comidinha vem, portanto, carregada em sacos de plástico do hiper mais próximo. De preferência na quantidade necessária, em embalagens de esferovite e plástico, que são bem mais práticas para guardar os bens alimentares no frigorífico e no congelador. Comer já lavadinho, sem pelos, penas e de preferência cortado como deve de ser. Mas ainda há quem pense que faz parte de se ser macho ir à caça. É coisa antiga, já fazia o seu pai. É coisa de homem. E faz parte. É gente estúpida minha gente. É gente muito estúpida.
Pergunto, havia necessidade? Mas sei, claramente, que não.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



